Profecias do Bandarra

Nasceu em Portugal um Profeta, talvez, maior, que o Nostradamos e cujas profecias ficaram quase escondidas e difíceis de encontrar... talvez a Igreja nao tenha gostado...
Alguém tem o ebook da obra completa do Bandarra?

Comentários

  • editado August 14

    António Gonçalves de Bandarra(1500 – 1556)?
    Houve em tempos um site muito interessante e útil chamado Vidas Lusófonas, que entretanto desapareceu da internet(vidaslosofonas.pt) como tantos outros sites lusófonos, sobre o Bandarra:

    Em torno de 1500 nasce em Trancoso. - 1530 a 1540: Compõe suas trovas. - 1541: Julgado pelo Tribunal do Santo Ofício, condenado com uma pena leve. Retorna a Trancoso onde vem a falecer em 1556. - 1603: As trovas do Bandarra são impressas pela primeira vez, em Paris, por obra de D. João de Castro (Paráfrase e Concordância de Algumas Profecias de Bandarra, Sapateiro de Trancoso). - 1644: As trovas são publicadas por segunda vez, em Nantes. - 1809: As trovas são reeditadas em Barcelona, por ocasião das Invasões Francesas.

    Sonhava, anónimo e disperso,
    O Império por Deus mesmo visto,
    Confuso como o Universo
    E plebeu como Jesus Cristo.
    Não foi nem santo nem herói,
    Mas Deus sagrou com Seu sinal
    Este, cujo coração foi
    Não português, mas Portugal.

    Fernando Pessoa, sobre o Bandarra

    Muitos dos judeus trazem mui empapeladas muitas profecias nossas por amor das grandes venturas que prometem parecendo-lhes que são as que eles esperam. No número das quais saem as do Bandarra.

            D. João de Castro
    

    UMA CONVERSA ENTRE O CÉPTICO E O CRÉDULO
    Lisboa, 1539
    Gravura da época apontada como sendo a oficina do Bandarra.

    • Estás a troçar de mim!

    • Não, não estou. Trouxe-o aqui para isso mesmo.

    • O que estás a me dizer? Um sapateiro analfabeto, lá daqueles teus lados, cristão-velho, profetizando? Como isto é possível? Tu que ainda crês nos antigos ensinamentos, em especial de teu avô que foi rabino antes do ato de D. Manuel, de que não há profecia entre eles, que não se devem misturar as coisas. Já não basta meu primo ter casado com uma cristã-velha e colocado o filho para se tornar um padre, e agora escuto esta de ti? Se nos pegam, estamos perdidos.

    • Vejo como falas. Tu não andas a por em dúvida não só a religião dos cristãos mas também a nossa? Se te pegam será por conta do que? Além disto, não te aflijas. O homem é de confiança. Freqüenta minha casa lá em Trancoso há um par de meses. Precisas ver como é. Ele não sabe ler mesmo. Nós lemos para ele alguns trechos da Bíblia, um pouco daquelas traduções que circulam escondidas, lembras-te? Pois bem, lemos para ele e o homem começa a falar coisas fantásticas, prevê o advento daqueles novos tempos que tanto esperamos. Escuta só o que ele diz da situação geral na qual vivemos:

        Como nas Alcaçarias
        Andam os couros às voltas,
        Assim vejo grandes revoltas
          Agora nas Clerezias
          Porque usão de Simonias
        E adoram os dinheirios
        As Igrejas pardieiros,
       Os corporaes por mais vias.
      
    • Espera aí, tu lês isto?

    • Pois claro. Ele fala e eu escrevo. Tomo notas. Depois outros copiam.

    • Estais mesmo loucos. Tu e este teu grupo. Não sabes que já foi instituído o Tribunal da Inquisição? Que isto andará a rodar por aí até cair nas mãos de quem não deve.

    • Escuta, ele já andou aqui por Lisboa há alguns anos. Conheceste o João Bilbiz?

    • Claro que conheci.

    • Então, foi na casa dele que ele juntou uma porção de pessoas como nós para ouvi-lo. O João Lopes é que começou com esta coisa de anotar as trovas. Naquela altura ele declamou para ele o seguinte:

    Um grande leão se erguerá

              E dará grande bramido
           Seu brado será ouvido
           A todos subjugará
           Correrá e morderá
           E fará mui grandes danos
           Grandes reis dos arianos
           A todos assombrará
    
    • Vês a referência? Um grande leão. Sabes bem que temos o Leão de Judá como nosso símbolo.

    • E o “rei dos arianos”, quem é?

    • Isto não sei. Há muitas coisas estranhas nas trovas dele. Nem tudo pode estar claro. Ele fala inspirado. Há muitas coisas que nossa razão não alcança.

    • Vens dizer a mim isto? A nossa razão não alcança. E a fé o que nos dá? Estes loucos a profetizar.

    • Olha, viemos até aqui para nos reunirmos. Ele está lá, junto com os outros, à tua espera. Ouça-o. Sentirás que é algo especial aquilo que diz. Já tomamos todas as precauções. Vem.

    UM SAPATEIRO FAZ SUA OBRA

    Bandarra, sapateiro de Trancoso, poeta e profeta. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

    O homem sentado em meio ao burburinho dos donos da casa e dos visitantes não provoca nenhuma impressão especial. Um artesão típico de uma pequena vila do interior do país.

    • Bem vindo a esta casa, nobre e bom sapateiro. Meus amigos dizem que tem muito a contar.

    Também sou oficial

    Sei um pouco de cortiça
    Não vejo fazer justiça
    A todo mundo em geral
    Que agora a cada qual
    Sem letras fazem Doutores
    Vejo muitos julgadores
    Que não sabem bem, nem mal
    Borzeguins pera calçar
    Hão de ser cordovães
    Notários, Tabeliães,
    Tem o tento em apanhar

    (O sujeito parece um demente. Fala por versos insanos. E esta risada… Deve ser por isso que o alcunham de Bandarra! Mas já sabe que sou notário. Andam sempre a falar dos notários! Que nossa prosa nada tem a ver com o rigor dos relatos, ou algo assim. Ele também sabe que ando a duvidar dele e de outras coisas de religião. É preciso ter cuidado).

    • Bem, meu tio notário e alguns amigos estão aqui para ouvir-te, bom amigo. Lá em Trancoso nos contas sobre a vinda de um grande rei que nos trará grandes vitórias e grande fartura.

    • Sim, foi quando me leste a passagem de Daniel sobre os quatro reis que me fincou a idéia de um quinto rei que está por vir em breve.

    (Ele consegue falar em prosa. Ainda bem. Pelo visto esta conversa maluca vai tomar um outro rumo).

    • Mas não temos trovas sobre isto, bom amigo.

    (Ai não, de novo não).

    Este Rey será tão excelente,
    De quem tomei minha teima,
    Não he de casa Goleima,
    Mas de Reys primo e parente.
    Vem de mui alta semente
    De todos quatro costados,
    Todos Reys de primos grados
    Serão os Reys concurrentes
    Quatro serão nam mais;
    Todos quatro principais
    De Levante ao Poente.
    Os outros Reys mui contentes
    De o verem Emperador,
    E havido por Senhor
    Não por dadivas, nem presentes

    • Deve ser o filho de David, diz um dos convivas.

    Todos empalidecem. O sapateiro- poeta sabe exatamente qual a origem de seus ouvintes. Que talvez estejam escutando e entendendo suas trovas de maneira que ele nem suspeita. Mas decide fazer-se de desentendido.

    • Ah sim, arremata o notário. Cristo Nosso Senhor é o filho de David, não é?

    (Isto não pode acontecer. Acho que estes convivas estão perdendo o juízo. Falar assim abertamente no Messias que esperamos… Eu cá comigo já não

    sei bem se o espero. Acho que meu arremate despistou o sapateiro trovador).

    • Sim, meu senhor. Eu mesmo deixo isto claro numa outra trova que seu sobrinho já anotou.

    Todos terão um amor

    Gentios como pagãos,
    Os Judeos serão Christãos,
    Sem jamais haver error
    Servirão um so Senhor
    Jesu Christo, que nomeio,
    Todos crerão, que ja veio
    O Ungido Salvador

    • Claro, claro. Só mesmo os judeus e os gentios negam-se a acreditar nesta realidade. Veja, bom sapateiro, eu mesmo sou devoto de S. Antônio, de quem carrego o nome.

    (Que triste é viver esta vida de mentira).

    • Mas eu sei que vocês são boa gente, bons cristãos. Mas não tenho nada contra os judeus. Eles vão acabar aceitando Cristo, vocês verão. Sabe, vejo-os vindo ao encontro do Rei Encoberto, este que haverá de vir

    Judeos que lhe haveis de dar?
    Dar lhe hemos grande thesouro
    Muita prata, muito ouro,
    Que trazemos de além mar,
    Far nos heis grande merce
    De nos dardes vista delle
    Entrai, Judeos, se quereis,
    Bem podeis falar com ele,
    Que lá dentro o achareis
    Tomará com seu poder,
    E grão saber,
    Todos os portos de alem,
    Marrocos e Tremecem,
    E Fêz também,
    Para tudo a seu querer

    (Estamos brincando com fogo. Há coisa de um ano foi queimado David Reuveni, aquele que surge por aqui em 1525 dizendo-se emissário de um reino judeu, de parte das Tribos Perdidas, com uma carta de recomendação do Papa, interessado em promover uma ação militar conjunta de cristãos e judeus para libertarmos a Terra Santa do jugo dos turcos. Encontra-se com D. João III, causa a maior efervescência aqui no nosso meio, eu mesmo no ardor de minha juventude fiquei entusiasmado com sua pregação. Depois foi desmascarado, preso e queimado. Agora aparecem estas trovas que claro fazem referência a ele. Isto não pode continuar. Meu sobrinho deve estar mais louco que este sapateiro).

    • Mas de onde virão estes judeus, trovador?

    • Ah virão das terras longínquas.

    Vi a Tribu de Dão

    Com os dentes arreganhados,
    E muitos despedaçados
    Da Serpente e do Dragão
    Vós sois do povo cerrado,
    Que dizem estar ajuntado
    Nessas partes Orientaes
    Muitos estão desejando
    Serem os povos juntados:
    Outros muito avizados
    O estão arreceando
    Arreceão vir no bando
    Esse Gigante Golias
    Mas por ver Henoch, e Elias
    Doutra parte estão folgando
    Dizeime, nobre Barão
    Pergunto, se sois contente
    Dizer me vossa semente
    Se he da casa de Abrahão?
    Que eu sou desta geração
    Sahi da Tribo de Levi,
    Sacerdote como Heli,
    O meu nome he Arão

    (Estamos mesmo perdidos. Perdidos, perdidos. Mais explícito que isto impossível).

    • Bem, estamos um pouco confusos. Serpente e Dragão deve ser referência ao profeta Isaías, não?

    • Ah, claro que sim

    Em Esdras o vi pintado,
    E também vi Isaías,
    Que nos mostra nestes dias
    Sahir o povo serrado

    • Mas e o tal povo cerrado?

    • Ah, estes são aqueles que aguardam para lá de um rio, aguardando a hora de voltar.

    E que via aos que estão
    Trás os rios escondidos
    Sonhava que eram sabidos
    Fora daquella prizão
    E tambem vi Reuben
    Com a grã voz de muita gente
    O qual vinha muito contente
    Cantando Jerusalém
    Oh! Quem visse ja Belem,
    E esse monte Sião
    E visse o Rio Jordão
    Para se lavar mui bem!
    E assim vi Simeão,
    Que cervava todas as partes
    Com bandeiras e estandartes,
    Nephtali e Zabulão
    Gad vinha por capitão
    Desta gente que voz falo,
    Todos vinham a cavalo
    Sem haver nenhum peão

    (Sim, pode ser mais explícito ainda… São as Dez Tribos Perdidas! Sei disto por uma história contada por meu pai e também pelas celeumas quando aparece aqui o Reuveni.)

    O sapateiro está agora mais empolgado do que nunca com a atenção que os convivas prestam às suas trovas.

    • Os senhores são tão letrados que

    Muitos podem responder,
    E dizer:
    Com que prova o çapateiro
    Fazer isto verdadeiro
    Ou como isto pode ser?
    Logo quero responder
    Sem me deter
    Se lerdes as Profecias
    De Daniel e Jeremias
    Por Esdras o podereis ver.
    UM NOVO VISITANTE
    Os cristãos-novos, amigos do Bandarra, temem o Santo Ofício da Inquisição. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
    Auto-de-fé no Terreiro do Paço (do Arquivo do Museu da Cidade, Lisboa). Bandarra e os seus amigos cristãos-novos tinham boas razões para temer o Santo Ofício da Inquisição.
    A escrava bate à porta. Há uma visita. O homem que adentra o recinto é conhecido de alguns. João Lopes é seu nome. Foi na casa de seu falecido amigo, João Bilbiz, e depois na sua, há oito anos, que o sapateiro começa seu trovar. Seu retorno a Lisboa corre de boca em boca entre alguns cristãos- novos.

    • Ora viva! Há quanto tempo não vejo meu amigo sapateiro? Continuas a trovar?

    • Sim, ilustre amigo. Lembro-me bem de ti. Trouxeste hoje tua glosa do Talmud?

    (Glosa do Talmud? Perderam mesmo o juízo…).

    O desconforto e perplexidade na sala são palpáveis.

    • Ah, meu amigo continua bem humorado e com boa memória. Mostrei a ele, quando ficou lá em casa, umas anotações das Sagradas Escrituras e ele achou que era esta tal glosa de Talmud.

    • Por falar na estada que teve em sua casa, meu tio notário quis saber quem eram os tais reis arianos?

    O sapateiro vê todos pousarem os olhos nele a espera de uma explicação.

    • O Sr. João Lopes pode explicar melhor. Foi ele que me contou daqueles reis antigos chamados de arianos.

    • Sim eram os reis que governavam as Espanhas e seguiam a doutrina herética dos arianos, sabem, aqueles que negavam a natureza divina de Nosso Senhor Jesus Cristo, vocês sabem ao que eu me refiro.

    (Sim, claro. Arianos não crêem na divindade de Jesus, nós tampouco, mas já que não podemos ser citados, que fiquem os reis arianos. Muito inteligente e muito culto este João Lopes. É bom que tenha cuidado pois nem sempre a vida beneficia os que tem mais sabedoria…).

    • Mas o nosso amigo sapateiro fala de coisas do futuro. E o agora?

    -Ah, sem dúvida há muita coisa ruim acontecendo.

    Como nas Alcaçarias

    Andam os couros às voltas
    Assim vejo grandes revoltas
    Agora nas Clarezias
    Porque usão de Simonias
    E adoram os dinheiros
    As Igrejas, pardieiros,
    Os corporaes por mais vias
    O sumagra com a cal

    Faz os couros ser mociços

    Ah! Quantos ha mãos noviços
    Nessa Ordem Episcopal
    Porque vai de mal a mal
    Sem ordem nem regimento,
    Quebrantão o mandamento,
    Cumprem o mais venial

    (Está a falar mal da Igreja. Com isto eu até que concordo).

    • Vejam, meus senhores, como o dinheiro em tudo anda a mandar. Como não se faz mais a justiça.

    E quando lhe vão pedir
    Conselho aos demandões,
    Como lhe faltam tostões,
    Não o querem mais ouvir
    Há de ser bem assentada
    A obra dos chapins largos,
    A linhagem dos Fidalgos
    Por dinheiro he trocada
    Vejo ainda misturada
    Sem haver chefe que mande;
    Como quereis que a cura ande
    Se a ferida está danada?

    • Estamos já aqui e o que acha meu tio notário oferecer vinho para nosso convidado e para nós.

    (Este meu sobrinho… Foi acertado que não haveria nem comida nem vinho. Comida pois há aqui muitos que não comem carne de porco e a ausência da mesma poderia gerar suspeitas. Vinho?! O vinho solta a língua e se isto acontecer pode ser uma desgraça).

    • Traga vinho e traga pão, senhor notário. Nosso trovador e nós bem que comemos e bebemos. Podemos até comungar.

    (Idiota! Fazer uma troça destas com a religião dos cristãos. De onde saíram estas pessoas tão descuidadas? Passei tantos anos em Coimbra que de volta a Lisboa já conheço muito pouca gente).
    O dono da casa levanta-se e vai providenciar o vinho e o pão. Arrasta uma perna ao caminhar, como sempre ocorre após sentar-se por algum tempo. Os médicos também não resolvem este seu problema.
    (Médicos e sacerdotes. O que sabem eles?).
    PÃO E VINHO SOBRE A MESA
    Profecias do Bandarra... Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
    El-Rei D. Sebastião - contra o domínio castelhano, os sebastianistas irão apontar nas trovas do BANDARRA a profecia do próximo regresso do "Príncipe Encoberto".

    Os convivas se comprazem com a frugal refeição. Um deles murmura algo antes de beber e de comer. Os olhos dos presentes se cruzam, um pouco apreensivos.

    (Quem é este sujeito? Ah, ouço falar dele. É um que preserva com afinco os costumes da nossa religião. Acabou por benzer o vinho e o pão, como manda a Lei de Moisés. Como é mesmo a benção? “Bendito sejas tu Adonai, nosso Deus e senhor do universo, que criaste o fruto da videira”. “Bendito sejas tu Adonai, que fazes sair o pão da terra”).

    • Diz, oh trovador, e como entra Portugal nesta história?

    Forte nome he Portugal
    Um nome tão excelente
    He Rey do Cabo Poente
    Sobre todos principal
    Não se acha vosso igual
    Rey de tal merecimento
    Não se acha, segun sento,
    Do Poente ao Oriental
    Portugal tem a bandeira
    Com cinco quinas ao meio,
    E segundo vejo, e creio,
    Este he a cabeceira
    E porá sua cimeira
    Que em Calvario lhe foi dada
    E será Rey de manada
    Que vem de longa carreira.

    • Mas para quando prevê que tudo isso irá acontecer?

    Ja o tempo desejado

    He chegado
    Segundo o firmal assenta
    Ja se cerrão os quarenta
    Que se emmenta
    Por um Doutor ja passado
    O Rey novo he alevantado
    Ja dá brado
    Ja assoma sua bandeira
    Contra a Grifa parideira
    La gomeira
    Que taes prados tem gostado

    • Desculpe senhor sapateiro, mas nada disso vejo. Não temos nenhum novo rei. O que significa “já cerram os quarenta”? Ainda nem lá chegamos.

    • Senhor notário, o senhor desculpe, mas nosso convidado fala por enigmas, por símbolos. Não se deve tomar ao pé da letra tudo que ele diz, mas o espírito que alimenta suas trovas.

    Os tempos ja se vem

    Porque, senhor, perguntais
    Mui grande segredo tem
    Que muitos dizem Amen
    Mais se calão mais e mais
    O mais está por cumprir
    O que minha conta somma
    Porque de partir a vir
    O texto se ha de cumprir
    Primeiro, senhor, em Roma

    (Que sujeito confuso! Estas trovas misturam tudo. Agora fala em Roma, na Igreja. Fico cada vez entendendo menos).

    • Meus caros senhores, todos letrados. Eu falo minhas trovas pois vejo estas grandes coisas acontecendo.

    Convosco falo estas couzas

    Como com um grande letrado
    Mas umas são perigosas
    E as outras duvidosas
    Ainda não hão começado

    (Há pouco disse que o tal rei já está alevantado. Agora diz que nada ainda começou. Será que alguém consegue pôr ordem nesta confusão?).

    • Antes de tudo acontecer, muitas coisas ruins acontecerão

    Vejo o mundo em perigo,
    Vejo gentes contra gentes;
    Já a terra não dá sementes,
    Senão favacas por trigo
    Já não há nenhum amigo,
    Nenhum tem o ventre são,
    Somos já vento soão,
    Que não tem nenhum abrigo

    • Mas depois disso, meus letrados amigos

    Vejo erguer um grande Rey

    Todo bem aventurado,
    E será tão prosperado,
    Que defenderá a grey
    Este guardará a Lei
    De todas as heregias,
    Derrubará as fantezias,
    Dos que guardão, o que não sei.

    Faz-se tarde naquela casa em Lisboa. O vinho ajudou a todos terem sono. Quiçá possam sonhar naquela noite com as profecias e vaticínios que ouviram aqui. Todos se despedem. Um notário continua a não acreditar nos dons proféticos daquele homem estranho. Parece-lhe que fala aquilo que os outros querem ouvir, que de alguma forma suas profecias são produzidas, direccionadas, pelo seu público. E pensar que seu sobrinho é um dos grandes entusiastas deste sujeito? Bem, o tempo engolirá a tudo isso.

    LISBOA, OUTUBRO DE 1541
    Portas d'El-Rei, em Trancoso.

    Na procissão dos condenados, Gonçalo Anes, o Bandarra, sapateiro de Trancoso, carrega sua vela de penitente. Não recebe maiores penas após ser julgado pela Inquisição sobre as origens e a natureza de suas profecias. Declara ser analfabeto, ouvir muitas passagens da Bíblia e compor trovas baseadas nelas. Recebe a advertência de deixar de ser amigo das novidades e de não interpretar a Escritura segundo sua imaginação ou idéia. Segue para Trancoso e nunca mais se ouve falar dele.

    LISBOA, EM ALGUM MOMENTO DO TEMPO

    Um notário cristão-novo é condenado à fogueira. Não por professar a Lei de Moisés mas por blasfemar e atacar toda e qualquer crença religiosa.

    • Morra judeu, assassino de Nosso Senhor.

    Ele chega quase a rir. Se ao menos tivesse sido condenado por manter a crença de seus ancestrais… Poderia assim ter algum conforto na recompensa que receberia em outra vida. Não, vivemos e morremos como as bestas. É nisso que acredita e é por isso que o condenam. A chamas começam a se alastrar e a malta grita de alegria. Séculos se passarão até que a alegria do livre-pensar vigore em terra lusitana. Mas os sonhos do Bandarra pairam sobre ela desde muito tempo.

    POST SCRIPTUM

    Um dito talmúdico afirma que aquele que cita suas fontes traz redenção ao mundo. As Trovas do Bandarra circularam por séculos de forma manuscrita, em diferentes versões. Mesmo as edições impressas diferem entre si e até hoje não se publicou a imensa variedade de sua expressão. Os trechos aqui publicados, não colocados em ordem segundo as edições conhecidas e misturando de propósito estilos diferentes de grafia, foram extraídos dos seguintes trabalhos:

    Adriano Vasco Rodrigues e Maria da Assunção Carqueja Rodrigues “As Trovas do Bandarra: suas influências judaico-cabalísticas na mística da Paz Universal” in Revista de Ciências Históricas, Universidade Portugalense - Porto, 1987 pp. 185 - 221.

    João Lúcio de Azevedo, A Evolução do Sebastianismo. Lisboa, 1984, pp. 105- 111.

    Antônio Pires Machado, D. Sebastião e o Encoberto. Lisboa, 1969, pp. 65- 78.

    Os nomes de João Bilbiz e João Lopes estão nominalmente citados no processo inquisitorial contra o Bandarra, assim com reuniões que manteve com grupos de cristãos-novos em Lisboa e em Trancoso. Não se pense, com isso, que só estes dados do relato sejam verídicos. Verídicos são os vaticínios e as profecias do Bandarra. Irreal e metafórico é o mundo no qual vivemos.

Entre ou Registre-se para fazer um comentário.