Maior Exodo Portugues. Nunca caia no esquecimento!


Sem Wannsee, mas com muita noite e nevoeiro, espessa e interdita, a história do maior êxodo português continua a ser matéria tabu para os fantasistas da descolonização. Ainda sem grande arrimo documental - pois que que os grandes crimes não dormem em papéis, fazem-se - S.O.S Angola: os Dias da Ponte Aérea, de Rita Garcia, muito embora já tenha sido publicado há quase oito anos, constitui a primeira tímida tentativa de desocultação de uma barbaridade escondida, escamoteada e mandada emparedar por quem, por cobardia ou premeditação, decretou a expulsão dos portugueses de África.
A Ponte Aérea começou, com propriedade, em Setembro de 1974, com a expulsão em massa dos portugueses de Moçambique. Nesse fim de verão do primeiro ano da balbúrdia, ninguém quis ver o que estava a acontecer. As pessoas chegavam a Lisboa e desapareciam no nevoeiro. Uns iam para abarracamentos na Costa da Caparica, outros para campos de campismo ou encontravam guarida provisória em casa de familiares residentes em Portugal.
Em 1975, a dor foi industrializada. A Ponte Aérea foi mais que uma operação logística. Imagine o leitor agarrar por atacado na população do Porto ou da Amadora, embarcá-la em seis semanas e colocá-la a seis mil quilómetros de distância. Para trás, casas, mobílias, livros, afectos, animais, memórias. Os aviões vinham carregados, como os comboios de gado que nos anos 30 e 40 chegavam aos campos de concentração da Europa totalitária.
Sempre de noite, longe dos olhos e corações de um país caído na festividade revolucionária ou dos turistas que vinham a Portugal naquele verão em busca de sol. Se chegavam à tardinha, os aviões eram colocados pudicamente no extremo da pista da Portela até que a noite se pusesse e aquela gente esfaimada, rota e descalça, com velhos agonizantes, outros já mortos, mais crianças nuas que não faziam o boneco do colonialista de chibata na mão pudesse ser desembarcada e encaminhada para as muitas Drancy que o Portugal revolucionário criou. Quantas vidas custou? Quantos traumas, quanta humilhação? Isso não importa, pois que saibamos, muitos Eichmann à portuguesa jamais expressaram o mínimo remorso.
MCB
Rita Garcia - S.O.S. Angola: os dias da ponte aérea. Lisboa: Oficina do Livro, 2011.

Comentários

  • “O português onde quer que se tenha enrai-zado, como colonizador, levou a ternura como princípio, porque ela está na própria massa do seu sangue. O português jamais implantou o terror. [...] E o português, até na hora em que devia ser vingativo, como qual-quer ser humano, é complacente.”DJALMA BETTENCOURT em Iglezias, A verdade sôbre Angola, 1961, s.p

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